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A Grande Prisão Global Causada Pelas Dívidas

Toda nossa economia, toda nossa civilização, todo o nosso mundo, foram construídos com base no endividamento. Ninguém nunca nos perguntou se era isto que queríamos, é simplesmente desse modo como o sistema funcionava quando entramos nele. Muitos de nós viveram suas vidas inteiras sob o pressuposto que o endividamento é uma função necessária da vida diária e um ímpeto valioso de uma sociedade bem-sucedida. Muitas famílias neste país vivem presas a ciclos cada vez maiores de criação de compromissos financeiros e juros a pagar. Existem até mesmo escolas de pensamento econômico que estão centradas unicamente na produção e utilização de nada, exceto dívidas. Somente recentemente é que muitas pessoas começaram a se perguntar quais são os benefícios tangíveis (se é que existem) de estarem dependentes de uma vida financeira baseada em dívidas.

Após minucioso exame, torna-se evidente que a dívida não alimenta a economia; ela a sufoca. Ela não produz o crescimento; ela o limita e o envenena. Dívidas extremas não são um órgão fundamental em uma estrutura de comércio; são uma aberração, um câncer em propagação que interfere com a circulação do comércio saudável. A dívida é, em grande parte, desnecessária.

Logicamente, as dívidas podem ser muito úteis se você for o controlador ou o supervisor que decide a forma de operação de um sistema, especialmente se desejar centralizar e manter o poder sobre esse sistema. A arma tática da dívida tem sido usada pelas elites há séculos como um modo de aprisionar as massas, ou para criar uma atmosfera de dependência perpétua. Vamos dar uma olhada no que realmente é a dívida e como ela está sendo utilizada contra o cidadão mediano atualmente.

Compreendendo a Dívida

O clássico A Pequena Dorrit, de Charles Dickens, é comumente interpretado como um romance, entretanto, o personagem principal no livro não é a Pequena Dorrit, ou o gentil Arthur Clennam, mas o sistema de dívidas da Grã-Bretanha, e seus efeitos sobre cada classe social, desde os mendigos nas ruas até as pessoas da alta sociedade. Dickens deplorava a ideia da dívida e das prisões por falta de pagamento de dívidas, pois seu próprio pai foi lançado na prisão por muitos anos, forçando o jovem Charles a trabalhar desde cedo para ajudar a manter a família. Dickens compreendia bem o objetivo maligno que estava por trás do sistema de dívidas e o denunciava frequentemente em seus escritos.

Um personagem em A Pequena Dorrit que me sempre me fascinou é o Sr. Merdle, o superastro do sistema bancário que domina o mundo dos investimentos com a ajuda de autoridades do Tesouro britânico e de vários políticos depravados. Merdle é chamado nos círculos empresariais de “um homem do nosso tempo”, uma maravilha financeira que parece ganhar fortunas em todos seus novos empreendimentos. Quase ninguém percebe que Merdle é uma fraude, um farsante com um esquema de pirâmide de Ponzi que pega o dinheiro dos especuladores incautos para injetá-lo em investimentos cada vez mais arriscados. De modo a continuar ocultando o fato que todos seus empreendimentos financeiros terminarão na ruína, ele atrai mais e mais depositantes para pagar os compromissos anteriores. O problema é que Merdle cria dívida para pagar dívidas anteriores. Eventualmente, sua insolvência, e a de todos os que confiaram nele, acontece e expõe a mentira cuidadosamente criada. Toda a instabilidade econômica é invariavelmente revelada um dia, independente da engenhosidade como foi ocultada.

Para mim, o Sr. Merdle é quase uma representação literária perfeita do sistema atual dos bancos centrais e dos cartéis dos grandes bancos internacionais, como o J. P. Morgan, Goldman Sachs, Citigroup, etc. Nos EUA, o Sistema da Reserva Federal, com a ajuda dos políticos de ambos os partidos, criou uma série de incentivos ilusórios (por meio da redução da taxa de juros) que permitiu aos bancos emprestar dinheiro fiduciário quase ilimitado a uma taxa de juros próxima de zero. O país ficou inundado por crédito, até ao ponto em que era praticamente impossível para a pessoa mediana evitar a tentação de tomar empréstimos. O que ninguém compreendeu naquele período de tempo é que o crédito derivado do dinheiro fiduciário não é “capital”, não é riqueza. Crédito é a criação de um compromisso financeiro a ser pago em uma data futura, se é que será pago e, como não existem regras para vincular a dívida a qualquer garantia legítima (pelo menos para os bancos), não há nada que lastreie a obrigação financeira se ela deixar de ser honrada. Portanto, o crédito induzido por dinheiro fiduciário não é a criação de riqueza (como os economistas keynesianos parecem acreditar), mas a destruição da riqueza!

Devido à sua falta de tangibilidade, a dívida pode ser empacotada e reempacotada de qualquer forma que os bancos quiserem. Os derivativos são um exemplo perfeito da natureza fantasma da dívida; os títulos em derivativos não têm qualquer valor real, porém são classificados e negociados como se fossem um produto sólido. Este tipo de transação, em sua própria raiz, é uma bomba-relógio fiscal. Exatamente como no mundo literário de A Pequena Dorrit, o esquema de pirâmide de Ponzi no nosso mundo muito literal teve de atingir um ponto de ruptura, o que aconteceu em 2008.

Uma diferença visível entre nossos problemas e aqueles narrados por Dickens é que o Sr. Merdle realmente se sente culpado por aquilo que causou (ou, pelo menos, teme a Justiça que terá de enfrentar), o que o leva a cometer suicídio perto do fim do livro. No mundo real, os Merdles da nossa época parecem estar perfeitamente satisfeitos em ver este país ruir devido às suas intrigas e raramente sofrem quaisquer consequências por aquilo que fizeram. Na verdade, a elite bancária moderna sente prazer em ver os efeitos das ondas de choque da detonação do crédito e não sente qualquer remorso. O ponto é que Dickens viu claramente mais de 150 anos atrás o que as pessoas ainda hoje não veem: que a dívida é uma ideia abstrata, um jogo absurdo que confunde e enlaça os inocentes. Os sistemas baseados em dívidas trapaceiam os cidadãos, levando-os a trocarem sua riqueza tangível e sua mão-de-obra pela promessa de acertos futuros que nunca acontecem. A dívida serve somente para enfraquecer as massas e dar maior poder aos credores.

As Consequências do Endividamento

De que forma a economia baseada em dívidas nos serviu até aqui?

A dívida em cartões de crédito da família americana mediana gira em torno de 8 a 15 mil dólares. O total da dívida familiar, incluindo prestação da casa própria e outros financiamentos bancários atingiu uma média de 136% da renda anual das famílias:

http://www.creditcards.com/credit-card-news/credit-card-industry-facts-personal-debt-statistics-1276.php. http://blogs.forbes.com/moneybuilder/2010/06/24/one-big-difference-between-chinese-and-american-households-debt/.

Aproximadamente 80% dos financiamentos da casa própria feitos para clientes de alto risco ao longo da última década foram na modalidade de Hipotecas com Taxa de Juros Ajustável, o que significa que 80% das hipotecas no país tiveram sua taxa de juros redefinida, ou que pode ser redefinida a qualquer momento, para um nível muito mais alto. Ocorreram aproximadamente 1,4 milhão de pedidos de falência em 2009 e 1,5 milhão em 2010. Um em cada 45 lares recebeu aviso de retomada do imóvel em 2010:

http://www.marketwatch.com/story/top-10-cities-where-foreclosure-rates-are-highest-2011-01-27. http://www.uscourts.gov/Statistics/BankruptcyStatistics.aspx.

Tenha em mente que em 2005, novas normas governamentais foram implementadas, tornando a declaração de falência pessoal muito mais difícil. Em 2006, os pedidos diminuíram quase que totalmente. Agora, apesar dos obstáculos mais rígidos, os pedidos cresceram novamente em mais de 100%.

A dívida pública “oficial” dos EUA está agora acima de 14 trilhões de dólares, o que é cerca de 100% do Produto Interno Bruto nacional, mas se os programas de direitos e benefícios, como o Seguro Social, forem incluídos, esse número será provavelmente 400% do PIB. A barreira dos 100% é frequentemente citada como um ponto de ruptura para a maioria dos países com dificuldades em honrarem suas obrigações financeiras. A dívida pública grega estava entre 108% e 113% do PIB quando o governo precisou adotar medidas de austeridade. De 2004 a 2010 (um intervalo de apenas seis anos), a dívida pública americana dobrou de tamanho. Para colocar isto em perspectiva, foram necessários duzentos anos para a dívida alcançar o primeiro trilhão de dólares. Agora, estamos vendo a acumulação de pelo menos um trilhão a cada ano. Isto é insustentável.

Atualmente, fala-se muito sobre o teto da dívida, que foi elevado seis vezes nos três últimos anos. Essa frequência não tem precedentes. As agências internacionais de classificação de risco estão agora sugerindo abertamente o fim da classificação AAA para os títulos emitidos pelo Tesouro dos EUA:

http://www.bloomberg.com/news/2011-01-28/moody-s-says-time-shortens-for-u-s-rating-outlook-as-s-p-downgrades-japan.html

Uma redução na classificação do risco de crédito seria devastadora para o pouco interesse estrangeiro que ainda existe pelos títulos do Tesouro dos EUA.

Internamente, as cidades e os estados americanos estão à beira da falência devido à evaporação dos mercados das letras financeiras municipais. As cidades dependem grandemente de duas fontes de receita de modo a manterem suas operações: o tributo sobre a propriedade e os títulos municipais. A receita com os impostos sobre os imóveis está obviamente diminuindo de forma acentuada, pois o valor dos imóveis está em uma espiral decrescente. Isto deixa somente a receita com as letras financeiras municipais, que também infelizmente estão saindo do mapa.

Meredit Witney, uma analista do mercado financeiro de Wall Street, declarou recentemente em uma entrevista no programa 60 Minutes, que acreditava que de 50 a 100 cidades americanas se tornariam inadimplentes durante uma crise municipal em 2011. Ela foi imediatamente atacada pelo restante da grande mídia por fazer essa predição. Em minha opinião, ela foi bastante conservadora em sua estimativa, especialmente se o Sistema da Reserva Federal não lançar outra rodada da Flexibilização Quantitativa (a terceira) para os estados. Até aqui, porém, Ben Bernanke, o presidente do Fed, nega que essa política será implementada, o que significa que há uma boa possibilidade de que ela seja implementada.

Para resumir, os EUA estão nadando em dívidas. Absolutamente nada mudou para melhor em termos de destruição da riqueza e de obrigações financeiras a cumprir desde o início da crise do crédito. Além disso, a situação somente parece cada vez mais precária a cada novo trimestre.

Onde a Montanha Russa da Dívida nos Deixará?

Qual é o resultado mais provável das condições descritas anteriormente? O fator vital será a contínua política da Reserva Federal de socorros financeiros como um “contrabalanço” para o crescente problema da dívida.

Como é explorado no livro de Dickens discutido anteriormente, evitar os efeitos da dívida por meio da criação de mais dívida é uma solução temporária que somente leva a uma calamidade maior com o passar do tempo. Qualquer um que acredite que a inflação da moeda fiduciária “cancela” a instabilidade da dívida ficará profundamente desapontado. No fim, o estímulo criado pelo governo não é uma solução para o peso total da dívida fabricada, mas uma realocação da dívida para longe dos bancos e para o colo do contribuintes. A Reserva Federal e o Tesouro não pagaram nenhuma parte da dívida. Eles simplesmente desviaram a responsabilidade pelo pagamento dos bancos, que criaram o problema, e passaram essa responsabilidade para a população que paga seus impostos. Além disso, eles também posicionaram o dólar para receber o forte golpe de uma desvalorização. É aqui que as portas da prisão se fecham…

Se a dívida pública histórica não está sendo diminuída, mas somente movida enquanto se expande, então isso significa que eventualmente a confiabilidade do governo para receber crédito será posta em dúvida. O investimento estrangeiro em títulos de longo prazo do Tesouro está cada vez menor. O banco central americano é agora o maior detentor da dívida pública dos EUA, superando até mesmo a China. (Nota: Este fato tem sido ignorado por quase todos os veículos da mídia dominante.):

http://www.ft.com/cms/s/120372fc-2e48-… (Requer senha).

Portanto, a questão do calote da dívida vai do teórico para o imperativo. Se a Reserva Federal continuar a comprar a dívida pública com dinheiro fiduciário, criado a partir do nada, isto significa que os efeitos da dívida somente serão retardados, o dólar será rejeitado como moeda de reserva mundial e a hiperinflação será uma certeza. Se a Reserva Federal não continuar a comprar, então o governo dará o calote na dívida, a infraestrutura financeira do país deixará de existir, o dólar perderá seu status de moeda de reserva mundial e a hiperinflação será uma certeza. As elites bancárias não apenas criariam uma prisão, elas empurraram o povo americano para dentro de Alcatraz!

A batalha a respeito de mais uma elevação no teto da dívida ofuscou o fato que a dívida já fez todo o estrago que precisava fazer. Manter o teto no nível atual se torna uma batalha de princípios, uma batalha importante, sem dúvida, mas de modo algum impedirá a disfunção e o caos que estão por vir. Na melhor das hipóteses, haverá apenas uma redução na duração do desastre em alguns anos. A coisa importante a lembrar é que a intervenção do governo sempre produzirá uma perda maior. Não há escapatória, não existe um atalho mágico, não existe uma ideia brilhante de último minuto que possa colocar um fim nesta bagunça. Anos de trabalho árduo, de determinação, de honestidade e de sacrifício estão diante de nós.

A inflação será a palavra da vez em 2011. A dívida infindável facilita a liquidez keynesiana infindável. Espere ver o preço das commodities duplicar novamente neste ano.

A dívida das famílias provavelmente se manterá estável durante todo o ano, à medida que mais pessoas abandonarem seus hábitos de consumo com cartão de crédito e fizerem um esforço concentrado de poupar. Em 2009, o uso do cartão Visa caiu 11% e o do MasterCard caiu 22% nas operações de crédito. Mais de oito milhões de consumidores deixaram de usar totalmente seus cartões de crédito desde o fim de 2009:

http://abcnews.go.com/Business/holiday-shopping-americans-cut-back-credit-card/story?id=12367547.

Os financiamentos bancários ainda estão apertados, pois os credores aumentaram as exigências para a concessão de financiamento pelo sistema habitacional do governo federal.

http://www.bloomberg.com/news/2010-11-17/home-ownership-gets-harder-for-americans-as-lenders-restrict-fha-mortgages.html.

O uso do crédito e do consumo baseado em dívidas retornarão aos níveis similares a 2006? Sem chance. Alguém poderia prever que a poupança aumentará grandemente à medida que o uso do crédito diminuir, mas isto também é improvável. Por quê? Por que ao longo do próximo ano as pessoas estarão gastando mais em produtos essenciais devido a uma inflação muito maior. Qualquer poupança que elas conseguirem fazer será devorada pelo implacável aumento nos preços dos alimentos e da gasolina. O termo usado para a combinação de dívida crônica, baixo crescimento no nível do emprego e maior inflação é “estagflação”. Honestamente, não consigo imaginar uma situação pior do que enfrentar custos muito maiores e uma dilapidação do padrão de vida. Como Charles Dickens mostra claramente em A Pequena Dorrit, como alguém pode esperar que um homem consiga pagar o que deve se ele for colocado na prisão por causa de suas dívidas?

Quebrando o Ciclo no Meio dos Choques Globais

Por que depois de viver trinta anos sob o regime despótico de Hosni Mubarak o povo egípcio subitamente decidiu se rebelar? Por que agora? A grande mídia apresentará diversas explicações, mas a chave para a maior parte da agitação popular, especialmente no Oriente Médio, foi a falta dos gêneros de primeira necessidade. A última vez que ocorreram protestos desta magnitude no Egito foi durante a Revolta do Pão, em 1977, quando o Fundo Monetário Internacional determinou o fim dos subsídios estatais para os alimentos básicos. É alguma maravilha que a agitação nas ruas ocorra tão rapidamente na região quando o preço dos grãos é duplicado? Este é o poder devastador da dívida e das assim chamadas “soluções” que meramente a perpetuam.

A Tunísia, o Egito e o Iêmem são apenas o início. O ferrão da inflação será insuportável à medida que as medidas de austeridade forem adotadas na Europa, de modo que o potencial para protestos de rua na Grécia, Espanha, Portugal e Itália é grande. Entretanto, até aqui, o ambiente mais volátil no planeta, está nos Estados Unidos, que, como mostramos em artigos anteriores, estão sendo deliberada e violentamente desmantelados em preparação para o controle e centralização por parte do Fundo Monetário Internacional. Hoje, o FMI está acompanhando furtivamente o Egito, pronto para agarrá-lo à medida que o país enlouquece. Amanhã, serão os EUA. Ficarei muito surpreso se não ouvir sobre a intervenção do FMI na economia americana e no dólar até o fim deste ano, oferecendo mais empréstimos e mais governança sem prestação de contas à população.

O segredo para romper o ciclo da dívida é adotar uma política de descentralização e de autossuficiência. Recuperar o controle do comércio local e estabelecer micro-economias com métodos próprios de comércio. O endividamento precisa ser removido totalmente da equação e sistemas protegidos pela flexibilidade e pela redundância precisam ser aplicados. A poupança e a produção significativa precisam tomar o lugar da gastança e da terceirização. A tutela e as filosofias claustrofóbicas do globalismo precisam ser colocadas de lado e substituídas por objetivos de independência e autossuficiência. Cortando nossa dependência do sistema corrupto, interrompemos a capacidade dele de se alimentar de nós. Construindo um sistema melhor, tornamos o sistema furado atual obsoleto. Se vamos ou não nos libertar de todo esse sistema de dívidas é algo que depende inteiramente de nós mesmos.

Dois passos muitos importantes são necessários: o reconhecimento que a dívida não é o único caminho e o reconhecimento que o endividamento é o pior caminho. A prosperidade não é alcançada sacrificando-se o futuro. A sociedade que finalmente coloca este fato em seu coração conseguirá realizar coisas incríveis.

Autor: Giordano Bruno

Fonte: www.espada.eti.br

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